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O BRASIL PERDE O DEPUTADO RICARDO FIUZA ::.


O MEU AMIGO RICARDO FIUZA
Lindemberg da Mota Silveira (*)

Conheci Ricardo Fiuza em 1957, no Colégio Carneiro Leão, na Rua do Hospício. Em que pese não ser considerado de primeira linha, seus professores eram de alta qualidade, mantinham uma relação de liberdade com seus alunos e instigavam o debate. Procuravam nos ensinar a ser livres e questionadores. Estudávamos o clássico, para depois fazermos o vestibular de Direito. Éramos jovens, eu, 3 meses mais velho que ele, e sonhadores. Alto, com mais de 1.80, bem falante, bom orador e, sempre, impecavelmente vestido, sua presença chamava a atenção. Não era do tipo que passava desapercebido. Estudioso e inteligente, já se mostrava culto, com idéias próprias, as quais defendia com firmeza. Tínhamos uma visão diferente do mundo. Eu, como a maioria dos jovens na minha idade, acreditava no socialismo como único sistema capaz de promover o bem estar social; ele, também preocupado com as desigualdades, à época bem menores do que atualmente, acreditava que se poderia chegar ao mesmo resultado através de um sistema em que se preservasse a propriedade privada e as liberdades individuais. Apesar de nossas diferenças acreditávamos no livre debate de idéias e no sagrado direito de livre pensar e divergir. Também nos unia a repulsa às verdades únicas, absolutas ou oficiais; ao pensamento uniforme e dirigido. Sonhávamos com a construção de um mundo menos cruel, com um Brasil socialmente justo, em que todos tivessem oportunidade de ascender socialmente. Finalmente, tínhamos uma paixão em comum: o fidalgo cavalheiro de La Mancha. Assim começou nossa amizade.

Passamos no vestibular e juntos cursamos a Faculdade de Direito do Recife, concluindo nosso curso em 1963. Ainda na Faculdade ele e casou com Ilse, sua amada e brava companheira de risos e lágrimas. Além de estudar, teve que cuidar de prover os meios de subsistência da família. Ainda na Faculdade em inúmeras oportunidades deu provas de caráter firme, cumpridor da palavra e absoluta lealdade aos amigos. Mesmo com os encargos de, ainda muito jovem, prover a família, mantinha firmes seus sonhos de ajudar a construção de um Brasil melhor e sua incessante busca pelo saber.

Terminado o curso seguimos caminhos distintos. Em 1974, quando o M.D.B. foi consagrado nas urnas, ele se elegeu Deputado Federal pela ARENA.

Em 1976, na condição de Procurador da Fazenda Nacional, fui transferido para Brasília, sendo lotado na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. Um belo dia reencontrei Ricardo no Gabinete do Procurador-Geral, Francisco Dornelles. Depois, passei a reencontrá-lo com freqüência, sempre no Ministério da Fazenda, aonde ia tratar de assuntos os mais diversos. Em todas as ocasiões em que vi Ricardo Fiúza apresentar algum pleito, posso afirmar que todas as suas postulações tinham suporte legal e eram absolutamente éticas. No Congresso, acompanhei sua participação que foi marcada pelo brilhantismo, pela prudência, pelas lealdade, honra, dignidade e busca incessante dos interesses nacionais. Jamais, buscou interesses subalternos, pessoais ou de grupos. Na Constituinte, sua participação foi marcante, sempre na defesa das coisas nas quais acreditava, o que lhe rendeu adversários e até detratores e perseguidores, por parte daqueles que defendem um pensamento único. Como Ministro de Estado pautou sua atuação pela defesa dos interesses nacionais, sendo prova, que chegou a abrir mão de recursos orçamentários de sua pasta para que fossem transferidos para a pasta da Saúde, à época dirigida pelo eminente brasileiro Prof. Adib Jatene. Durante o episódio da CPI dos "anões do orçamento", com base em mentiras e aleivosias tentaram cassá-lo. Sugeriram que ele renunciasse, mas como um bravo, fez questão de ser submetido a julgamento para que pudesse provar sua inocência. E o fez de modo brilhante, íntegro e irreprochável. A verdade triunfou e foi absolvido por esmagadora maioria.

Em 2003, seguindo o exemplo dos elefantes, que retornam às origens quando a morte se aproxima, retornei a Recife e fui acolhido no seu Escritório, aonde passamos a ter um convívio diário, inclusive, com sua Ilse e seus encantadores e queridos filhos. Pouco havia mudado. Apenas se tornara menos jovem, mais comedido, mais sábio e com espírito público mais aguçado. Mantinha o hábito da leitura constante, acentuada preocupação com os interesses nacionais, o amor pela família e pelos amigos e a lealdade.

Muitas, e muitas e muitas vezes ficamos tardes a conversarmos sobre literatura, história, política e filosofia. Nossas divergências continuaram e nossa amizade aumentou. Em 2007 completaríamos bodas de ouro de amizade; pretendíamos comemorar. Dele vou sentir muita falta e vou guardar íntegra a imagem de um homem público da maior grandeza, grande amigo, bravo, honrado, íntegro e probo. O Brasil, com certeza, nesses momentos difíceis, sentirá sua falta. Amigo Ricardo: as tuas qualidades valorosas, cantando espalharei por toda parte, se Deus me der engenho e arte.

(*) Advogado

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