ADEUS AMIGO !
Mário Delgado(*)
Foi da mente criativa do poeta John Donne que ,em 1624, saíram os célebres versos que inspiraram o escritor Ernest Hemingway ao titular seu mais popular romance "Por Quem Os Sinos Dobram": "Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti"
Se a morte de qualquer pessoa nos diminui a todos, por pertencermos à espécie humana, que se dirá da morte de uma pessoa querida, como foi, para mim, Ricardo Fiúza.
Lamentável perda, que me faz sentir a finitude da vida. Lá se foi um grande brasileiro, em todos os sentidos. Pernambuco está diminuído. O Brasil está diminuído.
A vida de Ricardo Fiuza confunde-se com a história das mais polêmicas e controvertidas lutas travadas no cenário político brasileiro nas últimas duas décadas.
Fiúza foi um líder inquestionável, uma das mais importantes e respeitadas figuras da política nacional.
Desde a juventude até o final de sua vida, dedicou-se a lutar por suas idéias. Não relutou em assumir todos os riscos que essa luta impõe, não temeu ser criticado, nem mal compreendido. Não temeu ser injustiçado.
Foi duramente criticado por muitos que hoje reconhecem o seu valor. Quase foi cassado por aqueles que depois buscaram o seu perdão e a sua ajuda.
A partida de Ricardo Fiúza enluta e entristece não apenas seus familiares e amigos. É uma perda para os que lutam pela soberania nacional, pela democracia e pela liberdade.
Era um homem verdadeiro, de caráter admirável, cultura excepcional e afetivo ao extremo, que sabia conquistar e cativar as amizades.A sua candura com os amigos surpreendia a todos os que o imaginavam rude ou prepotente, pela aparência robusta ou pelos fartos bigodes anteriormente cultivados.
Marcou minha vida.
Se há algo que lamento, na minha relação com ele, é não tê-lo conhecido mais cedo.
Devo dizer que, em relação a Fiuza, experimento uma múltipla sensação de perda: a perda do amigo e companheiro, sempre presente e dedicado à causa da amizade. A perda do conselheiro e guia que, em pouco tempo, se tornou o referencial de meus passos no Recife. E a perda do colega de trabalho, com quem aprendi, no dia a dia , as lições que tanto contribuíram para a minha formação profissional, expandindo a minha visão da vida e dos homens .
Quero nesse momento de dor, agradecer a ti Ricardo Fiúza por tão bem vividos anos de amizade e de convívio profissional.
A você "deputado" amigo, a minha homenagem de afeto e gratidão através da lembrança do que disse Napoleão séculos atrás:
"Passará a memória das minhas batalhas, mas não passará a lembrança dos códigos que promulguei".
Fiúza fez mais do que simplesmente promulgar o Código Civil. Ajudou a criá-lo. E não passará a memória das batalhas que travou para que a sociedade brasileira pudesse dispor de um instrumento legal da magnitude desse novo código civil.
Perdemos todos com a tua ida prematura. Perde o Brasil a sua "amante" mais devotada. Perde a comunidade jurídica, um de seus mais importantes representantes no Congresso Nacional. Perde o povo de Pernambuco, de quem foste defensor dos mais aguerridos.Perdem Ilse, Ricardinho, Roberto, Beth e Teca, o seu grande timoneiro. Perdemos, nós, teus amigos, a tua companhia confortante, a tua presença constante, bem humorada e carinhosa.
Pernambuco, o Brasil e o mundo perdem, acima de tudo, um homem de bem, injustiçado muitas vezes, mas sem jamais haver perdido as suas crenças, fiel aos seus ideais, fiel às suas convicções e fiel aos seus amigos.
Fica em paz, amigo. Nós que aqui ficamos, no vácuo da tua ausência, certamente, estaremos sofrendo mais do que ti.
Os sinos não dobram hoje por ti; eles dobram por todos nós.
(*) Advogado